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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A lenda do crisântemo

Não poucas são as lendas através das quais procuram os autores atribuir origem maravilhosa ao crisântemo.

Eis uma dessas curiosas lendas:


Na Floresta Negra vivia um camponês chamado Hermann. Na véspera de Natal, quando voltava descuidado para casa, encontrou, caído na neve, um pobre menino que estava quase a morrer.

Penalizado com a triste situação da criança, tomou-a nos braços e levou-a para a sua modesta cabana. A mulher do camponês e seus filhos tiveram, também, muita pena do infeliz e com ele repartiram alegremente a humildade ceia que tinham preparado.

O pequeno, que a bondade daquela gente havia confortado, passou a noite na cabana paupérrima e, na manhã seguinte, sem que ninguém pudesse notar, desapareceu.

Dias depois o camponês, ao entrar numa igreja, teve a sua atenção despertada por uma estampa, na qual aparecia o Menino Jesus e verificou, com assombro, a semelhança entre o Salvador e o pobrezinho a quem ele acudira na noite de Natal.

Não havia dúvida. O pequenino que fora socorrido e agasalhado no pobre casebre do lenhador era o Menino Jesus.

Impressionado com essa descoberta, resolveu Hermann rever o lugar em que havia encontrado o Menino Jesus e verificou que haviam milagrosamente nascido, no meio da neve, várias flores de extraordinária beleza. Apanhou cinco dessas flores e levou-as à sua mulher, que lhes pôs o nome de crisântemo, isto é, flores-de- Cristo, e, mais propriamente, flores de ouro.

Autor (D.) – Lendas do Céu e da Terra.

Fonte:
http://almascastelos.blogspot.com.br/

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um templo digno para Deus!

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Quando a pequena Gabriela percebeu do que se tratava, soltou a tesoura e ficou pensativa...

No primeiro banco, sentada ao lado de seu padrinho, destaca-se Gabriela, toda vestida de branco e radiante de alegria. Com o mesmo ardor com o qual colaborou na consecução do sacrário, também se esmerou ela em santificar sua alma.

- Ah, meu caro Sr. Augusto, hoje recebi uma má notícia! Nosso principal benfeitor escreveu-me anunciando que não poderá colaborar com a soma prometida!

- Não é possível, Pe. Silvio! Isso complica muitíssimo a finalização das obras do novo templo! Como faremos para arrecadar a quantia necessária?

- Só vejo uma solução: percorrer as aldeias vizinhas pedindo aos nossos paroquianos doação de tudo o que precisamos: pedras, tinta, dinheiro para pagar os vitrais...

- Sim, Pe. Silvio. Conheço esta boa gente e não duvido de que darão tudo quanto puderem, de acordo com suas possibilidades.
- O que mais sinto, porém, é a demora em oferecer um templo digno para Deus!
Sentada num canto do escritório de seu pai, a pequena Gabriela ocupava-se em recortar bonecas de papel, sem prestar muita atenção na conversa que ele mantinha com o pároco. Entretanto, quando começou a entender do que se tratava, soltou logo a tesoura que segurava nas mãos permanecendo imóvel e pensativa... Um templo digno para Deus!
Gabriela tinha apenas sete anos. Estava se preparando para a Primeira Comunhão e sonhava com receber Jesus no novo templo que estava sendo construído para substituir a antiga matriz, já quase reduzida a ruínas.
No dia seguinte, sua governanta levou-a a passear pelos campos vizinhos, como fazia todas as tardes. E, enquanto brincava perto do rio, a menina descobriu em um recanto certas pedras de um tom róseo muito bonito. Logo que as viu, lembrou-se do Pe. Silvio. Não tinha dito o bondoso sacerdote que precisava de pedras para a nova igreja? E aquelas eram tão lindas que certamente seriam do agrado de Jesus!
Decidiu, então, levá-las uma a uma para casa. E assim o fez durante vários dias, embora lhe custasse bastante ter de carregar aquele peso considerável para suas forças infantis.
A governanta estranhava aquela atitude e lhe perguntava por que fazia isso. Gabriela, contudo, respondia:
- É um segredo!
Algumas semanas depois, a menina viu o Pe. Silvio visitar seu pai mais uma vez. Ouviu-o, então, contar-lhe que já lograra juntar quase tudo o que faltava para finalizar a igreja. O bom pároco só se lamentava de não ter conseguido ainda o suficiente para pagar o tabernáculo. Havia pedido ao Dr. Gilberto e este lhe dissera não ser possível arcar com a despesa no momento.
Gabriela ficou de boca aberta! Como era possível que a seu padrinho, o homem mais rico da cidade, lhe faltasse dinheiro para algo tão importante? Talvez estivesse passando por uma situação difícil e não queria contar a ninguém...
Correu até o quarto, quebrou seu cofrinho e veio depositar nas mãos do sacerdote todas as moedas que tinha. Em seguida, tomando um ar solene, proclamou:
- Pe. Silvio, isto é para ajudar a construir o sacrário. E tenho algo ainda melhor...
Sem dar tempo para qualquer resposta, saiu correndo de novo e logo voltou cambaleante, carregando uma bela pedra rósea nas mãos. Ainda ofegando pelo esforço, exclamou:
- Tenho mais onze, cada qual mais bonita. Creio que elas vão agradar muito a Jesus!
O Pe. Silvio ficou comovido e, ao despedir-se da família, pensava na melhor forma de usar as doze peças de quartzo rosa encontradas pela menina. Não eram pedras preciosas, mas, bem trabalhadas e polidas, poderiam compor uma estupenda moldura para o sacrário. Sr. Augusto saiu para acompanhá-lo até a casa paroquial e Gabriela ficou sozinha em casa com sua governanta.
Minutos depois tocou a campainha. Era o Dr. Gilberto que decidiu entrar brevemente para cumprimentar a afilhada.
- Boa tarde, Gabriela! Vejo-te encantadora e bem comportada, como sempre. Conta-me o que tens feito nestes dias, minha pequena.
- Estou juntando pedras para a construção da igreja! Venha vê-las. São bem grandes e de uma cor especial!
Tomando-o pela mão, a menina conduziu o padrinho até o local onde as guardava com todo cuidado.
- São muito lindas! Como fizeste para consegui-las?
- Achei-as junto ao rio. Em segredo fui trazendo uma de cada vez ao voltar do passeio. E também estou colaborando na coleta que o Pe. Silvio está fazendo para terminar o sacrário. Quero que ele esteja belo e reluzente no dia da minha Primeira Comunhão!
Dr. Gilberto permaneceu alguns instantes em silêncio, lembrando-se de sua negativa ao Pe. Silvio. Dissera-lhe não dispor de dinheiro por ora, mas a realidade não era essa... Acostumado a mandar, ficara muito ofendido pelo fato não lhe terem consultado sobre o desenho do sacrário. Com o fino bom gosto que possuía e que todos elogiavam, teria sugerido adorná-lo com uma orla de belas pedras... como aquelas, por exemplo!
- Queres vender-me tuas pedras, Gabriela?
A pequena fitou o padrinho e, com os olhos brilhantes de entusiasmo, respondeu-lhe:
- Jamais! Já as ofereci ao padre. E como o senhor está passando por dificuldades, dei a ele também todas as moedas do meu cofrinho.
Corado de vergonha, o Dr. Gilberto abriu sua carteira, assinou um cheque, sem preencher a quantia, e colocou-o nas mãozinhas de Gabriela, dizendo-lhe:
- Guarda isto com muito cuidado e entrega-o nas mãos do pároco. Diz-lhe que é para fazer um sacrário maravilhoso para acolher Jesus no dia de tua Primeira Comunhão.
E para não ser traído pela emoção, despediu-se rapidamente, deixando a menina com o cheque nas mãos. Ela ficou sem saber muito bem o que tinha acontecido, mas disposta a encaminhar com todo cuidado aquele valioso presente.
Passados poucos meses, a paróquia se encontra em festa: os sinos repicam e a multidão se comprime para assistir à solene dedicação da nova igreja. O povo se extasia ante os sólidos muros de pedra, a imponência das torres e a fulgurante policromia dos vitrais. Bem no centro do altar-mor, inspirando a piedade e o fervor dos fiéis, reluz um tabernáculo de ouro emoldurado por magníficas pedras róseas, no qual, ao término da cerimônia, o Bispo depositará pela primeira vez as Sagradas Espécies.
No primeiro banco, sentada ao lado de seu padrinho, destaca-se Gabriela, toda vestida de branco e radiante de alegria, pois, naquele mesmo dia, seu Jesus adorado penetrará por primeira vez em seu coração. Com o mesmo ardor com que colaborou de modo tão eficaz na consecução do rico sacrário, também se esmerou ela, ao longo deste tempo, em santificar sua alma, a fim de agradar a Nosso Senhor. Não será, portanto, apenas num inerte tabernáculo de metal que Jesus Eucarístico estabelecerá sua morada, mas, sobretudo, em sua alma inocente e generosa, um verdadeiro templo digno para Deus!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A recompensa da honestidade

"Ah! Se tivesse a metade disso... tudo em casa estaria resolvido... Poderia me curar e trabalhar para sustentar meus pequenos!".


A alegria sempre esteve presente no lar de Henrique, pela harmonia que ali reinava. Como bom chefe de família, trabalhava incansavelmente para sustentá-la. Porém, conseguia, com esforço, só o necessário para uma vida sem muita folga. Não obstante, com sua esposa e filhos eram muito estimados na aldeia, pelas demonstrações que davam de virtude. Na verdade, a devoção a Jesus Sacramentado era o centro da família e daí emanavam as bênçãos para aquela humilde morada.
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Ao entrar no recinto sagrado foi inundada por
enorme consolação, pois o Santíssimo Sacramento
estava exposto
Entretanto, uma profunda tristeza veio abalar tão abençoada família: sendo acometido por uma doença mortal, depois de gastar suas economias com remédios e hospital, Henrique deixou a esposa, Helena, e seus três filhos na miséria. Antes, contudo, de exalar o último suspiro, quis dar aos seus um conselho simples, mas precioso:
- Em qualquer circunstância da vida, nunca deixem de invocar Aquele que é Todo-Poderoso. Na Eucaristia está o remédio para qualquer aflição.
Após sua partida para a eternidade, quem sustentaria a família? Os filhos ainda não tinham idade para trabalhar e Helena, devido aos cuidados com o marido, também ficara com a saúde abalada, sem condições para tanto. Por isso, em pouco tempo, não havia na casa sequer um pouco de farinha... Estavam a um passo da indigência completa. A viúva, desamparada em tal situação, não encontrou outra saída senão mendigar pelas redondezas. Não faltaram almas generosas que se enternecessem, à vista de sua dor. No entanto, o obtido não era suficiente.
Um dia, estando com os filhos para rezarem o terço como o faziam todas as tardes, entre lágrimas, dona Helena não resistiu e desabafou-lhes suas angústias:
- Meus filhos, estamos passando por momentos difíceis! Comove-me pensar que nem sequer temos o indispensável para sobreviver. Sua mãe não é capaz de trabalhar, e mendigar não traz muitos resultados...
Mateus, o mais velho, julgando-se responsável e adulto, quis tranquilizá-la:
- Não se preocupe, mamãe, sou grande e já posso trabalhar. Amanhã vou percorrer a aldeia em busca de serviço. Assim, poderei sustentar a família!
- Agradeço sua boa disposição, meu Mateus - disse a bondosa mãe -, mas você só tem dez anos!...
Luísa, a segunda filha, procurou consolá-la, dizendo-lhe:
- Mamãe, não se aflija, lembre-se do que o padre disse no domingo: Deus é protetor dos órfãos e das viúvas. Ele nunca vai deixar de nos amparar. Se Ele nos mandou o sofrimento, é porque nos ama!
- Sim, confie em Jesus - acrescentou Pedro, o pequenino. Papai disse que é na Eucaristia onde está o remédio para todas as aflições!
Reconfortada pelas palavras dos filhos, dona Helena, logo pela manhã, dirigiu-se à igreja a fim de implorar auxílio a Jesus, presente na Sagrada Hóstia. Já ao entrar no recinto sagrado foi inundada por enorme consolação, pois o Santíssimo estava exposto, criando um ambiente acolhedor, cheio de graças e de bênçãos. Ajoelhando-se junto ao altar, passou longas horas externando suas dores ao Divino Redentor e suplicando-lhe misericórdia.
Estava tão entretida em suas orações, que nem sequer percebeu a entrada de dois homens na igreja. Eram empregados do fazendeiro mais rico da região, os quais, após terem passado pelo banco para retirar uma boa quantia de dinheiro do patrão, quiseram visitar o Santíssimo Sacramento.
Completada a visita, retiraram-se, montando logo em seus cavalos, pois estavam atrasados com suas obrigações. Nesse ínterim, a viúva também foi saindo, e viu desprender-se e cair um saco volumoso da cavalgadura deles. Pesarosa,
a boa senhora tomou-o agilmente para devolvê-lo, não conseguindo, porém, devido à rapidez com que se distanciaram.
Dona Helena percebeu ter uma grande fortuna nas mãos e pensou: "Ah! Se tivesse a metade disso... tudo em casa estaria resolvido... Poderia me curar e trabalhar para sustentar meus pequenos!".
Não se deixando seduzir pelas moedas que pareciam palpitar naquele saco, no mesmo instante, foi entregá-lo ao sacristão, depois de ter-lhe explicado o ocorrido, pois, na aldeia era costume, quando aconteciam fatos similares, entregar os objetos perdidos à secretaria paroquial. Com a consciência tranquila, regressou para casa com a alma em paz.
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Dona Helena percebeu ter uma
grande fortuna nas mãos
Os empregados, somente ao chegarem à fazenda deram-se conta da falta do dinheiro. Cheio de aflição, um deles foi narrar ao patrão o sucedido, creditando-lhe que, por certo, havia caído por onde passaram. O patrão, muito piedoso, resolveu ir à igreja com o intuito de rezar para encontrar o objeto perdido. Chegou pouco tempo depois de a viúva haver se retirado. Aproximando-se do Santíssimo Sacramento, implorou a ajuda do Senhor dos senhores, pois naquele dinheiro estava o salário de seus empregados e, apesar de ser rico, esta falta ia desequilibrar seus negócios.
Impulsionado por uma graça, dirigiu-se à sacristia a fim de perguntar ao sacristão se, por acaso, não havia visto o valioso saco. Este lhe respondeu afirmativamente, e devolveu-lhe seu dinheiro, explicando ter sido uma pobre viúva sua grande benfeitora. Comovido diante da honestidade da boa mulher, quis agradecê-la, indo até sua residência.
Lá chegando, soube da história de sua vida. Condoído por sua situação e tocado por sua honestidade - que nem a extrema necessidade conseguiu abalar -, deu-lhe todo o saco como recompensa. A miséria de dona Helena pôde ser suprimida, ela cuidou da saúde e conseguiu sustentar a família dignamente.
De igual modo, o bom patrão também premiou seu servo, por lhe haver demonstrado tanta honestidade, assumindo o caso e sendo veraz em contar-lhe o sucedido, não inventando nenhuma desculpa ou falsa razão pelo desaparecimento das moedas. Por isso, o fez administrador de sua fazenda.
Este é o modo como Nosso Senhor retribui a todos aqueles que O buscam para adorá-lo e fazer-Lhe companhia no Santíssimo Sacramento

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A flor mais bela

Vou contar-vos uma graciosa lenda persa que exprime uma grande verdade.

Deus, assentado no trono excelso de sua glória, chamou um anjo e disse-lhe:
— Vai àquele jardim, na terra lá em baixo, e traze-me a flor mais bela que encontrares.

O anjo, mensageiro de Deus, desceu ao jardim e contemplou a variedade e a graça com que milhares de flores ali se misturavam, como um mosaico admirável.


Viu o minúsculo jasmim ao lado do grande helianto, a dália à sombra da madressilva abraçada ao oleandro; viu a margarida, a pervinca, a primavera e todas as outras belezas que erguem o seu hosana ao Criador. Mas o seu olhar fixou-se na rainha das flores, a rosa aveludada e odorosa, e disse:

— Esta é, certamente, a flor mais bela.


Colheu-a e voou ao trono do Altíssimo.
 A rosa  disse Deus — é o símbolo do amor, doce expressão de um coração ardente. Com a sua formosura, atrai os olhares; é suave, perfumada, delicada, mas não é a flor mais bela.

O anjo voou de novo ao jardim. Não olhou para o cravo, nem para a margarida, nem para a flor-de-lis. Não deu atenção ao amor-perfeito nem à tulipa soberba, mas, voando pressuroso a um canto escondido do jardim, colheu uma humilde violeta e disse:
— Certamente o símbolo da humildade há de ser a mais bela das flores.

Retomando o voo, foi ajoelhar-se aos pés da Majestade suprema. Deus, tomando a violeta, sentiu-lhe o delicado perfume e disse:
 Sim, é bela a violeta oculta, humilde e pequenina e de tão agradável fragrância. A humildade é a virtude que faz os santos, vence os demônios e opera grandes maravilhas nos corações dos homens. Todavia, não é a mais bela das flores.

O anjo retornou ao jardim. Fixando o olhar no lírio, ficou encantado com a sua alvura imaculada, seu porte altivo, seu perfume suave. Contemplou-o demoradamente, pensando e dizendo:
— Eis o símbolo da pureza imaculada. Esta, sim, deve ser a flor mais bela.

Vendo-o, Deus exultou e disse:
— O símbolo da pureza, da pérola mais fúlgida, mais heroica e sublime. Esta, sim, é a mais bela das flores.


E os olhos divinos brilharam de complacência.


(Fonte: Pe. Francisco Alves, C.SS.R., "Tesouro de Exemplos" - Vozes, Petrópolis, 1960)






quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Deus te vê!


"Ao abrir o último armário, oh alegria! Ali estavam as maçãs! Olhou ao redor, para certificar-se de estar sozinho, e ficou na ponta dos pés até alcançar uma delas..."

O edifício que abrigava o convento localizado nas montanhas era imponente e grandioso, mais parecia um castelo de Deus. E isso em nada prejudicava o espírito de pobreza das virtuosas monjas que ali habitavam. Ao contrário, recolhidas e totalmente voltadas à oração, na mais perfeita observância à regra de sua Ordem, o panorama e o ambiente as ajudavam a aproximar-se do Criador, pois sabiam que tudo concorria para a glória d'Ele, para quem viviam.

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Sempre que podia, Eduardo escapulia
com seu cachorrinho para brincar perto
do muro do convento
Trabalhavam a terra, comiam o que cultivavam e vendiam doces feitos com as frutas que lhes produzia seu generoso pomar. Eram famosas as maçãs do convento. Todos da região comentavam que nunca se havia visto outras mais belas e saborosas.
Naquelas cercanias vivia Eduardo com o avô, a quem ajudava em sua marcenaria. Ele sonhava com as maçãs das religiosas... Sempre que podia, escapulia com seu cachorrinho Faru para brincar perto do muro do convento e tentar descobrir onde ficava o pomar. Tinha esperança de achar alguma fruta caída pelo chão.
Já havia feito a Primeira Comunhão e sabia bem que não podia pegar nada alheio. Mas se a maçã estivesse fora do muro não teria mais dono... O cão farejava por todos os lados, o menino buscava e buscava, e nunca encontraram nada! Uma tarde, porém, enquanto vasculhavam os arredores do convento, abriu-se devagar seu imenso portão de madeira.
- Faru - disse Eduardo ao cachorrinho -, será que vão zangar-se conosco por estarmos aqui? Assustado, ele olhava para aquela porta tão grande e gasta pelo tempo, na expectativa do que ia acontecer. Apareceu, então, a irmã porteira, já de certa idade e com a fisionomia bondosa:
Bom dia, meu pequeno! Como você se chama?
- Bom dia, madre! - respondeu - Meu nome é Eduardo. E a senhora, como se chama?
- Sou a Irmã Maria de Jesus e sempre o vejo brincar por aqui com seu cachorrinho. Você mora por perto?
Au, au, au! - ladrou Faru, abanando o rabinho amistosamente, percebendo que havia sido mencionado.
Quieto, Faru! - ralhou o menino. E, dirigindo-se à freira, continuou:
Sim, moro aqui pertinho com meu avô, que é marceneiro.
- Marceneiro?! Há tempos buscamos um, a fim de consertar vários móveis das salas e do refeitório. Será que seu avô poderia fazer isso? Se for possível, pediremos as devidas autorizações ao Senhor Bispo, para que ele possa entrar em nossa clausura e trabalhar.
- Vou falar com ele. Acho que poderia, sim. Só que eu teria que entrar também, pois sou seu principal ajudante...
- Não tem problema, pedimos a autorização para um rapazinho a mais - disse a religiosa.
O menino despediu-se da nova amiga e desceu a ladeira, em disparada, para contar a grande novidade ao avô. Teriam um boníssimo trabalho e ele realizaria seu grande sonho: entrar no convento e conhecer as tão famosas maçãs...
Vovô, vovô! Veja o que aconteceu... - E narrou-lhe tudo.
O avô aceitou a proposta, pois precisavam mesmo de trabalhos novos. As últimas encomendas estavam quase terminadas e ele estava ficando preocupado com sua sobrevivência e a do neto, caso não aparecesse algo. Eram tempos escassos aqueles!
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Por fim abriu o último armário, oh
alegria! Ali estavam as maçãs!
Passadas algumas semanas, chegaram as autorizações do prelado. Eduardo e o avô se dirigiram ao convento para iniciar o trabalho. O menino estava emocionado. Não havia levado Faru, pois podia atrapalhar seus intentos. Contudo, sentia falta do amiguinho nessa hora tão especial.
Entraram pelo grande e antigo portão, e todas as freiras, avisadas das visitas, se recolhiam à sua passagem para guardar a clausura. Visitaram o Santíssimo Sacramento na bela capela, iluminada àquela hora da manhã pelos raios de Sol que incidiam sobre os vitrais, pintando os mármores do piso e das colunas com as mais variadas e brilhantes cores.
Depois de ver o que deveriam fazer, avô e neto começaram a trabalhar: serravam, martelavam, lixavam e poliam. Eram marceneiros de mão cheia!
À hora do lanche, Eduardo parou para descansar e decidiu explorar os aposentos do convento, pensando: "Chegou a hora! Vou buscar a despensa. Seguramente ali estarão armazenadas as maçãs, pois não posso ir ao pomar".
Encontrando a cozinha, refletiu: "Ninguém guarda alimentos muito longe da cozinha. A despensa deve estar por aqui...".
Andava pé ante pé para não despertar a atenção de nenhuma freira. No fundo de um corredor, deu de frente com a tão cobiçada despensa. Lá entrando, viu vários armários, todos muito limpos e ordenados, onde havia latas de arroz, feijão, farinha e açúcar. Onde estariam as maçãs?
Seu coração batia aceleradamente... Abria todas as portas e encontrava potes de vidro, copos, louça, vasilhas de barro, conchas e colheres de pau. E nada de maçãs... Por fim, quando abriu o último armário, oh alegria! Ali estavam as maçãs! Havia também peras, goiabas e laranjas. As maçãs eram de um vermelho como nunca vira. E enormes! Olhou ao redor, para certificar-se de estar sozinho, e ficou na ponta dos pés até alcançar uma delas...
Nesse momento, seu olhar pousou em um bonito azulejo decorativo fixado na parede, que dizia com grandes letras azuis e douradas: "Deus te vê!".
Eduardo ficou pálido... Era verdade! Deus o via e ele estava prestes a roubar uma maçã!
Fechou a porta do armário devagar e voltou cabisbaixo para junto do avô. Não teria sabor
aquela maçã tão bonita se tivesse sido roubada... Sempre se lembraria disso em sua vida, pois Deus vê todos os nossos atos. Jamais estamos sozinhos!
Chegada a hora do almoço, a Irmã Maria de Jesus veio trazendo-lhes uma deliciosa sopa de galinha e verduras frescas, colhidas na horta. E como sobremesa... maçãs!!! O menino mal podia acreditar. Provou a fruta e parecia do paraíso. Nunca comera algo igual! E não havia só uma, foram várias as que a freira lhes ofereceu.
Assim também age Deus conosco. Ele recompensa em abundância aqueles que são honestos e retos de consciência.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O ferreiro e a lição de vida


“Filho meu, não desprezes o castigo do Senhor, nem desanimes quando por ele és repreendido; porque o Senhor castiga aquele que ama, e açoita todo o filho que reconhece por seu”. (Hb 12, 6-7)”

Havia um ferreiro que, após uma vida de excessos, se converteu a uma vida de piedade. Durante muitos anos trabalhou com afinco, praticou a caridade, mas, apesar das suas orações e súplicas a Deus, por meio de Nossa Senhora, nada parecia dar certo na sua vida. Muito pelo contrário. Seus problemas e dificuldades aumentavam.

Uma bela tarde, um amigo que o visitara, e que se compadecia de seus esforços, comentou:

- É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem de oração e a evitar os pecados, sua vida começou a piorar. Não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda sua devoção aos santos e à Virgem Maria, nada tem melhorado.

O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida. Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, encontrou uma explicação. Disse:

- Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Como isto é feito? Primeiro, aqueço a chapa de aço até que ela fique vermelha. Em seguida, tomo um martelo pesado e aplico golpes até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita. Em muitas ocasiões uma vez apenas não é suficiente.

O ferreiro deu uma longa pausa, pensou e continuou:

- As vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue aguentar esse tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada. Então, eu simplesmente o coloco num monte de ferro-velho que está na entrada de minha ferraria.

Mais uma pausa e o ferreiro concluiu:

- Sei que Deus está me colocando no fogo das dificuldades. Tenho aceito as “marteladas” que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: “Meu Deus, não desista, até que consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser, mas jamais me coloque no monte de ferro-velho das almas.”

Deus quer fazer de cada um de nós uma pessoa melhor, pronta para ir para a bem-aventurança eterna…

Não se preocupe com as “marteladas da vida”, ou as provas a somos submetidos.

Deus está trabalhando nossa alma. Ele não vai desistir até o fim de nossa vida!

fonte: AASCJ - Associação Apostolado Sagrado Coração de Jesus

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O fogo da cólera


Levava São Frei Gil um cântaro às costas e, em caminho, encontrou um homem que lhe pediu de beber. O santo, abstraído em seus pensamentos, nem ouviu o pedido, nem se deteve.
Enfureceu-se o homem. Agrediu o santo com palavras ásperas e grosseiras.
São Frei Gil voltou-se, veio ao encontro do exaltado viajante e ofereceu-lhe o cântaro.
Disse-lhe o homem:
- É singular o teu procedimento. Quando delicadamente te pedi um pouco d’água nada obtive. Recorro à grosseria e tu me ofereces todo o conteúdo do teu cântaro.
Respondeu o servo de Deus:
- A princípio queria apenas saciar a tua sede, agora precisas de toda a água do cântaro para apagar o fogo da cólera que se acendeu em teu coração.
É Jesus o modelo de todas as virtudes, mas principalmente das doçuras; por isso disse Ele: “Aprendei de mim, que sou doce de coração”.
É preciso ter a doçura no interior da alma e exprimi-la nos atos exteriores. Deus não vos pede que não sintais a cólera, porque não está isso no vosso poder; mas pede-vos que não consintais nela. “É da natureza do homem ser assaltado pela cólera” , diz São Jerônimo; “mas é da natureza do cristão não se deixar subjugar por ela.”
São Bernardo diz até que, se o cristão não tivesse ninguém que o contrariasse, devia procurar quem o fizesse, e pagá-lo a peso do ouro, para ter um meio de praticar o sofrimento e a doçura. Se, pois, encontrais essa pessoa sem gastardes nem ouro nem prata, aproveitai-vos dela para o exercício de uma tão bela virtude.
Sede bons até o fundo d’alma e vereis que os que vos cercam se tornarão bons até as mesmas profundezas. Nada responde mais infalivelmente ao apelo secreto da bondade do que o secreto apelo da bondade vizinha.
Autor: (D.) – Lendas do Céu e da Terra

Fonte: http://almascastelos.blogspot.com.br


« (…) Atravessei o pátio para ir àquela linda casa; subi a escada e, assim que entrei na sala, vi o espectáculo mais tocante da minha vida. Seis crianças, que a mais velha tem onze anos e a mais pequenina dois, à roda de uma senhora muito moça, de estatura mediana, mas elegante e vestida com um simples vestido branco guarnecido de laços de fita de cor-de-rosa. Estava repartindo-lhes fatias de pão de trigo com manteiga, segundo a idade e o apetite de cada um! Ela fazia a distribuição com tanta graça! Enquanto os pequeninos lhe diziam com um tom de inocência: Muito obrigado, estendendo-lhe as mãozinhas mesmo antes de receberem as suas fatias. Enfim muito contentes com a merenda (…)»

Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe, 1774


Fonte: http://arteculturaepastelaria.blogs.sapo.pt