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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Vi o meu Anjo.

3. O Pai do céu crucificado e Sua Santa Mãe

Ate aqui só conhecia o Papai do Céu de grandes barbas brancas como algodão. Não tinha ouvido falar nada daquele crucifixo; e, na minha ignorância, não gostava de olhar para ele, porque sentia uma espécie de horror e pena ''daquele homem'' que eu não conhecia.

Naquele tempo (1904) residia em Santa Vitória a família Reis, cujo último membro ainda vive, Dona Glória Reis, que abrira lá um colégio particular. Minhas irmãs mais velhas foram lá matriculadas e creio que daí partiram as relações de meus pais com essa família.

Certo dia, Dona mimosa Reis (mãe de D. Glória) foi à nossa casa. Meu irmãozinho Jandir, com poucos meses de idade, estava doente e D. Mimosa foi levada ao quarto da mamãe. Eu gostava muito desa senhora e, logo que pressentia a sua presença, corria ao seu encontro  não a deixava mais. Assim sucedeu nesse dia. Ouvi a voz de D. Mimosa e lá fui ter com ela. Encostei-me aos seus joelhos e com ela fiquei,

D. Mimosa estava sentada defronte à grande cômoda onde se via, ao centro, o crucifixo preto com o Santo Cristo branco. Ela levantou-se e, tomando-me ao colo, dirigiu-se à cômoda, tomou o crucifixo, e perguntou-me: "A Dedé sabe quem é?" Não soube responder; a mesma pergunta fez, tomando a piazinha de louça com a Imaculada Conceição, , e também não sabia; mas, quando apontou para o quado da Santíssima Trindade, ah! conhecia, sim, o grande Papai do Céu, a quem eu já queria tanto! Lembro-me perfeitamente, como se fora hoje, da primeira liçãozinha que recebi, aos 4 anos, daquela boa e piedosa senhora, cuja lembrança jamis se extinguiu de minha memória. Que o bom Deus lhe dê a justa recompensa pelo imenso bem que ela fez à minha alma.

Quando eu lhe disse que o Pai Eterno era o Papai do Céu, D. Mimosa, apontando para o crucifixo, começou: "Este também é o bom Papai do Céu. A Dedé se chama Cecy e o Papai do Céu se chama Jesus. Jesus morava no Céu, que Ele fez tão bonito. E, aqui onde Dedé mora, também foi Papai do Céu quem tudo fez para toda a gente. E Papai do Céu disse: «Se toda a gente for boazinha, vou levar todos para o bonito Céu, para morar comigo». Mas quase toda a gente não quis ser boazinha e, por isso, em vez de ir para o Céu bonito, por castigo devia ir para lá para o fundo da terra, cheio de fogo, onde mora o diabo mau.

Papai do Céu, que é tão bom, ficou com pena dessa gente má; então Jesus veio morar aqui na terra para pedir àquela gente que ficasse boazinha e só fizesse o que Papai do Céu mandava. Mas a gente não gostou do bom Jesus, deram n'Ele, judiaram com Ele, mandaram os soldados agarrar Jesus e fizeram uma cruz assim como esta, mas bem grande, e, com uns pregos bem grandes, pregaram, com um grande martelo, o bom Jesus naquela grande cruz. Jesus morreu, depois viveu de novo e se foi outra vez para o Céu.

Mas Jesus é tão bom e ainda gostava tanto daquela gente má que disse assim: «Não faz mal, se toda a gente e também as criancinhas como a Dedé quiserem ser boazinhas, Eu as levarei para o bonito Céu, cheio de anjinhos que podem voar como as borboletas»".




E D. Mimosam  tomando piazinha, continuou: "E Esta moça bonita é a Mamãe do bom Jesus; ela é boa como seu Filho, e foi com Ele para o Céu". Aqui acabou a lição, a grande e profunda lição que tão profundamente se gravou na minha alma infantil, e que por três anos devia servir para o meu guia.
Vi o meu Anjo



2. O Pai do Céu contente

Um dia de grande tempestade, papa estava sentado na cadeira preguiçosa, lendo alguma coisa. Os trovões e relâmpagos se sucediam. Apavorada, fui acolher-me em papai, metendo-me entre seus joelhos. Foi aí que papai me disse:

''Está ouvindo? É Papai do céu que está zangado com as crianças e com a gente grande que não querem ser boazinhas.  E, quando as criancinhas são boazinhas, Papai do céu está contente e manda o sol".

Foi só. E foi assim que concebi a idéia do bom Deus. E desde esse dia até os 6 anos, diariamente, logo ao despertar, o meu primeiro interesse era saber se brilhava o sol ou se chovia. E, se chovia sem trovoada, imaginei por mim que Papai do céu estava triste, sem estar zangado. E quase sempre, ou sempre, achei em mim mesma a causa da tristeza de Papai do céu: não deixara Acácia fazer-me os papelotes e a chamara de feia; ou chorava de braba, orque queria ver o soldado banhar o Congo, o grande cavalo que papai montava; ou fizera manha para comer, e atirara com a colher ao chão. Nesse dia em que, zangada, atirara com a colher, choveu com trovoada. 

Sempre, porém, depois das minhas maldades, sentia grande desgosto por ter entristecido o bom Deus. Corria, então, ao quarto de mamãe e, olhando para o grande quadro onde se via Deus Pai com as grandes barbas brancas, procurava descobrir, no santo rosto, se ainda estava zangado ou triste.; mas nunca, nunca, durante três anos em que sempre repeti essa cena, achei que o santo rosto de Papai do Céu estivesse ainda zangado.

 E foi assim que comecei a amar, a querer bem ao bom Deus, pensando comigo: Papai do Céu é tão bom e me quer bem; quando sou má, Ele não gosta, sim, mas eu lhe digo que não faço mais  e Papai do Céu é de novo meu amigo.


Jamais falei a alguém sobre estas pequeninas cenas que comigo se davam dia por dia. Poucas vezes ouvia falar de Deus e até aos 5 anos não sabia rezar; aprendi-o no colégio. Sabia que o bom Deus morava no céu e que tudo que é bonito e bom, Ele o havia feito.



Cecy Cony: "Vi o meu Anjo"

Cecy Cony (Irmã Antônia) - Autobiografia. Nova edição do livro "Devo Narrar Minha Vida". Irmã Antônia recebeu a graça especial de ver e comunicar com familiaridade com o seu Anjo da Guarda. Este livro conta as histórias desta alma tão bela e pura que foi guiada por um Anjo às alturas da santidade.

















1. O Pai do Céu
no quarto da Mãe amorosa¹

Meu bom Jesus quero cumprir a Vossa Santíssima Vontade. Que eu, a Vossa criaturinha, glorifique Vosso nome e, reconhecendo tudo que por mim fizestes, eu Vos ame ainda mais, meu Deus.

Devo narrar tudo de que me recordo de minha vida. Fá-lo-ei como me sair do coração.

Minha vida considero-a como duas correntes entrelaçadas: uma, a Graça Divina; a outra, a miséria da criatura. Nasci a 4 de Abril de 1900 e a lembrança de minha infância conservo-a a dos 4 anos. Lembro-me tão bem de minha cidadezinha natal, Santa Vitória do Palmar, com seus extensos palmares; da casa paterna; das crianças com quem brincava e até da tarde de 2 de fevereiro de 1904 quando, sentada no degrau da escadinha que dava para o pátio e brincando com o ursinho de feltro, papai veio chamar-me: "Dedé, vem ver o nenê que chegou dentro do cestinho que a grande garça trouxe no bico para a mamãe". Era o meu irmão Jandir.

Lembro-me também que, nesse tempo (1904), já tinha alguma idéia do bom Deus. Lembro-me do crucifixo de pedestal, que sempre estava sobre a cômoda muito alta e que, para enxergá-lo, Acácia, a boa alma preta que cuidou de mim até os 10 ou 11 anos, levantava-me ao colo. Também do grande quadro, representando a Santíssima Trindade, que pendia da parede do quarto de mamãe, assim como de uma piazinha de louça com a Imaculada Conceição. E é só. 

Conhecia o bom Deus pelo nome de Papai do Céu e me recordo de que quem m falou n'Ele foi papai.